Só as árvores são fiéis às raízes: onde nascem, morrem. Nem o fogo demove a sua fidelidade à terra. Sua viagem, radical e vertical, planta-se na terra e ruma aos céus. A nossa, rizoma, é horizontal: procuramos a vida, por todo o lado, sem nunca a encontrar. O vegetal é a origem e toda a origem é simples: terra, água e luz, o seu alimento. As raízes sustentam as árvores de pé e de sustento, e o tronco do seu corpo e seus braços ramificados são artérias, que levam os elementos da terra até à folhagem da luz, onde se dá o milagre eucarístico da sua transubstancialização em seiva de vida. O inverno é uma longa noite: sem luz, descansam todo o inverno num sono vegetal, que não conhece insónias nem pesadelos. Com a chegada da primavera, a luz volta e a vida acorda, de novo. Depois delas, veio a animalidade, que vingou à custa do primeiro crime vital: a “biofagia”. Os primeiros animais têm uma costela vegetal: hibernam e a pele e as escamas são uma casca esverdeada. Com excepção das aves, a vegetabilidade bastava. Depois dela, foi a decadência, que culminou em nós, porque tudo o que evolui decai. A tília, que mora em frente aos Correios, ganhou em raiz a mesma proporção que ganhou em altura, corpo e copa. A força das raízes é tal que levantou as lajes de granito. Toda a árvore é duas: uma aérea e outra subterrânea. E nós? Como não cuidamos das raízes! As forças do silêncio são medonhas: ninguém as ouve e vê bulir, mas, quando se fazem sentir, viram e renovam o mundo. A tília e os Correios: de um lado, o vaivém do expediente da vida, que não podemos levar nem receber em mão, do outro, a coabitação, contraditória, entre a força das raízes, que irrompem do solo, e a idade, sem destinatário nem remetente, mas destinada e remetida, dia após dia, à espera da partida para o nada. Sentados no banco, que abraça hexagonalmente a tília, os idosos, uns de braços cruzados, outros de mãos nos bolsos, uns com as mãos debaixo das nádegas e balançando as pernas suspensas, outros com as pernas cruzadas, uns com as mãos entre as pernas e os pés cruzados, outros semi-inclinados, despedem-se da vida, sob a sombra acolhedora da tília. O Outono já vai quase a meio e os dias sombrios asfixiaram as folhas, que caem, moribundas, por entre as mãos inseguras e trémulas do vento, ou jazem, em tonalidades de agonia, dispersas pelo chão. Descendo a Avenida, olho o banco vazio, sob a tília semidespida, e a pergunta acompanha-me, sem me largar: quantos não levará o cair da folha, faltando à chamada no próximo estio?